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Fim da escala 6×1 pode consumir até 15% do lucro de empresas do agro, vê BTG; veja quem está mais exposto

19 out 2026, 11:37 - atualizado em 19 out 2026, 11:38
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(iStock.com/photoschmidt)

O fim da escala 6×1 no Brasil pode representar uma pressão relevante sobre a rentabilidade de empresas ligadas ao agro, mesmo quando o aumento das despesas parece pequeno em relação ao faturamento. Em alguns casos, os custos adicionais com mão de obra podem consumir dois dígitos do lucro líquido projetado para 2027, segundo análise do BTG Pactual.

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No relatório The Price of a Shorter Week (O preço de uma semana mais curta), publicado em 16 de outubro, o banco avalia os efeitos da proposta que prevê o fim da escala 6×1, com dois dias de descanso semanal remunerado e redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas, sem corte salarial.

Entre as companhias analisadas, a MBRF (MBRF3), a JBS (JBSS32) e as usinas de açúcar e etanol estão entre as mais expostas. O risco, porém, não se distribui de maneira uniforme: além da quantidade de trabalhadores necessária para manter as operações, a capacidade de repassar custos aos preços e a rentabilidade atual de cada negócio são determinantes para dimensionar o impacto.

O BTG calcula os custos anualizados em um cenário de implementação integral da mudança. Para chegar às estimativas, o banco considera que as horas de trabalho reduzidas precisarão ser repostas, elevando o custo por hora trabalhada em 10%. No caso das produtoras de açúcar e etanol, a premissa é mais severa, diante da necessidade potencial de ampliar as equipes para reorganizar os turnos.

O banco também apresenta um cenário em que apenas metade do aumento de custos estimado se materializa, mais próximo do efeito esperado da redução inicial da jornada de 44 para 42 horas semanais. Portanto, os números não devem ser interpretados como despesas que necessariamente serão integralmente registradas pelas empresas já em 2027.

Frigoríficos: MBRF tem maior exposição proporcional ao fim da escala 6×1

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Entre as empresas de proteínas, a MBRF aparece como a mais vulnerável em termos proporcionais, com um custo adicional anual estimado em R$ 824 milhões. O valor equivale a 6,8% do Ebitda consolidado projetado pelo BTG para 2027.

Na JBS, a despesa adicional pode alcançar R$ 1 bilhão por ano, mas representa uma parcela menor do resultado operacional: 3,2% do Ebitda estimado. Já para a Minerva Foods (BEEF3), o banco calcula um impacto de R$ 104 milhões, ou 2% do Ebitda projetado.



A diferença entre as companhias está relacionada, sobretudo, à composição das operações. A MBRF tem maior exposição aos segmentos de aves e suínos, que geralmente demandam mais mão de obra do que o processamento de carne bovina. A JBS, por sua vez, conta com uma base internacional de resultados mais diversificada, o que reduz o peso relativo dos custos adicionais no consolidado.

Na Minerva, a menor pressão estimada sobre o Ebitda não significa necessariamente um efeito pequeno sobre o lucro líquido. Segundo o BTG, o nível de endividamento da companhia pode ampliar a sensibilidade do resultado final.

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Além da folha salarial, os frigoríficos enfrentam outro risco: a disponibilidade de trabalhadores. Caso as empresas tenham dificuldade para contratar pessoal suficiente para manter os cronogramas de produção, a adaptação à nova jornada poderá limitar a capacidade operacional.



O momento do ciclo também importa. O BTG destaca que as margens pressionadas da carne bovina nos Estados Unidos prejudicam os resultados da JBS e da MBRF. Com uma base de lucro mais pressionada, o custo adicional da mudança trabalhista pode ganhar maior relevância para a rentabilidade dessas companhias.

Açúcar e etanol: reorganizar turnos pode custar mais

O setor sucroenergético reúne características que tornam a adaptação particularmente complexa. A folha salarial exposta à mudança representa entre 12% e 15% das receitas, o maior percentual entre os segmentos analisados pelo banco.

Além disso, as usinas precisam manter operações contínuas durante a safra. A redução das horas trabalhadas por funcionário não significa, necessariamente, que seja possível diminuir o ritmo industrial na mesma proporção. Para preservar a produção, as empresas podem precisar contratar trabalhadores adicionais e reorganizar escalas.



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Por isso, o BTG considera que aplicar simplesmente um aumento de 10% aos custos por hora trabalhada seria uma premissa otimista para o setor. O banco adota uma estimativa mais elevada para refletir a necessidade de reforço das equipes.

A São Martinho (SMTO3) pode enfrentar um custo adicional anual de R$ 193 milhões, equivalente a 5,1% do Ebitda consolidado projetado para 2027. Para a Jalles (JALL3), a estimativa é de R$ 48 milhões, ou 3,3% do Ebitda. Já a Adecoagro teria uma despesa adicional de R$ 104 milhões, equivalente a 2,9% do resultado operacional projetado.

O principal entrave é a capacidade de absorver ou repassar esses gastos. Como açúcar e etanol são commodities, as companhias têm menos liberdade para reajustar preços individualmente e compensar o aumento das despesas trabalhistas.



O ambiente favorável de preços do açúcar ajuda a sustentar os resultados do setor, mas não elimina a exposição estrutural à mudança. A combinação de operações intensivas em mão de obra, necessidade de funcionamento contínuo e poder limitado de precificação coloca as usinas entre os segmentos mais vulneráveis da cobertura do BTG.

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Na Adecoagro, a aquisição da Profertil deve diluir significativamente o impacto proporcional sobre os resultados consolidados, segundo o banco.

Produtoras de grãos têm impacto menor no agro, mas não nulo

As companhias ligadas à produção de grãos tendem a sofrer uma pressão proporcionalmente menor. Em geral, essas atividades empregam menos trabalhadores em relação à receita e não dependem da mesma continuidade operacional das linhas industriais de processamento de carnes e das usinas.

O BTG estima custos adicionais anuais de R$ 71 milhões para a SLC Agrícola (SLCE3) e de R$ 28 milhões para a 3tentos (TTEN3). Para Boa Safra (SOJA3) e BrasilAgro (AGRO3), o impacto estimado é de aproximadamente R$ 8 milhões por companhia.



Os valores representam entre 1,6% e 2,8% do Ebitda consolidado projetado para 2027, conforme a empresa.

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A exposição, contudo, varia ao longo do calendário agrícola. Plantio e colheita podem exigir reforço temporário das equipes, o que torna a organização da mão de obra um fator relevante mesmo em atividades com menor intensidade de trabalho em relação ao faturamento.



Ainda assim, na avaliação do BTG, o peso relativamente pequeno da folha salarial nas receitas e a menor dependência de operações industriais ininterruptas ajudam a limitar o impacto direto da mudança sobre as produtoras de grãos e as empresas que viabilizam o agronegócio.

M. Dias Branco pode ter impacto de 15% no lucro

Entre as empresas de alimentos básicos, a M.Dias Branco (MDIA3) aparece com uma das maiores sensibilidades ao aumento dos custos trabalhistas em relação ao resultado.

O BTG estima uma despesa adicional anual de R$ 163 milhões para a companhia, equivalente a 12,8% do Ebitda e a 15% do lucro líquido projetados para 2027.

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Na Camil (CAML3), o custo adicional estimado é de R$ 53 milhões, correspondente a 4,5% do Ebitda e a 12% do lucro líquido projetados.



Um dos dados que chamam a atenção na análise é o peso da folha salarial exposta da M. Dias Branco, que representa quase 15% das receitas brasileiras da companhia. Segundo o BTG, esse patamar é elevado em comparação com as outras empresas de alimentos analisadas e se aproxima do observado nas produtoras de açúcar e etanol.

A diferença entre o impacto sobre o Ebitda e o lucro líquido também ajuda a dimensionar a sensibilidade das companhias. Uma despesa adicional que parece administrável quando comparada ao faturamento pode representar uma parcela expressiva do resultado que efetivamente sobra para os acionistas.

Ambev tem maior capacidade de compensar os custos

Na outra ponta, a Ambev (ABEV3) aparece como uma das empresas mais bem posicionadas para absorver a mudança.

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O BTG estima um custo adicional anual de R$ 311 milhões, equivalente a 1% do Ebitda consolidado projetado para 2027 e a 1,2% do lucro líquido após o benefício fiscal considerado na análise.

O principal diferencial da companhia é a combinação de margens mais elevadas e maior poder de precificação. Segundo o banco, um aumento de apenas 0,5% nos preços líquidos realizados seria suficiente para compensar integralmente o custo adicional estimado.

Na M. Dias Branco e na Camil, os reajustes necessários seriam de 1,5% e 0,6%, respectivamente. Embora não sejam percentuais muito superiores ao da Ambev, o ambiente competitivo desses mercados pode dificultar a transferência integral das despesas aos consumidores.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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