Galípolo endurece defesa institucional do BC após caso Master e questionamentos sobre Campos Neto
O presidente do Banco Central Gabriel Galípolo fez nesta terça-feira (19) uma ampla defesa institucional da atuação da autoridade monetária nos casos envolvendo o Banco Master e o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto.
Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo afirmou que o problema do Master não estava no tamanho do passivo nem em um risco sistêmico ao sistema financeiro, mas na forma como recursos captados com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) eram utilizados pela instituição.
Ao longo da sessão, o presidente do BC buscou reforçar a narrativa de que a autarquia agiu tecnicamente tanto no acompanhamento do conglomerado de Daniel Vorcaro quanto na condução de processos internos envolvendo servidores e ex-dirigentes da instituição.
“O caso Bamerindus era mais complexo. O caso Econômico era mais complexo. O caso Nacional era mais complexo”, afirmou Galípolo ao comparar o Master às grandes crises bancárias dos anos 1990. Segundo ele, diferentemente daqueles episódios, o banco não representava ameaça sistêmica.
“O caso em tela tem uma complexidade relacionada ao que foi feito com o dinheiro e quem se envolveu com isso”, acrescentou.
Galípolo chegou a comparar o Master a um clube da “terceira divisão do futebol”, em referência ao fato de a instituição pertencer ao segmento 3 do sistema bancário. Segundo ele, o foco da preocupação do BC estava na destinação dos recursos captados com cobertura do FGC.
“O problema não era o passivo. Era o que se fazia com o dinheiro garantido pelo FGC”, afirmou.
O presidente do BC detalhou ainda mudanças recentes nas regras do fundo garantidor para evitar que outras instituições repliquem o modelo utilizado pelo Master. Entre as alterações, citou o aumento das contribuições para bancos excessivamente dependentes de captações cobertas pelo FGC e a criação de exigências mais rígidas para os ativos aceitos como garantia dessas operações.
“Você não pode ter um passivo de varejo em um ativo de hedge fund ou em ativos de gestores de fundos estressados”, disse.
Durante a audiência, Galípolo revelou que, após o BC barrar a compra do Master pelo Banco de Brasília, em setembro do ano passado, Vorcaro propôs uma saída organizada da instituição do mercado.
“Ele reconheceu que o banco não é viável mais, mas que ele mesmo faria uma ‘autoliquidação’, o passando para investidores árabes, dos quais eu jamais eu tive conhecimento”, afirmou.
Segundo Galípolo, os sinais de deterioração financeira da instituição já eram perceptíveis. O presidente do BC afirmou que, em 2025, a captação líquida do Master foi negativa em R$ 11,5 bilhões, enquanto as captações garantidas pelo FGC registraram saída líquida de US$ 9 bilhões.
“Hoje está vindo à tona uma série de comunicações que denunciam um certo asfixiamento financeiro do grupo”, disse.
Afastamento de servidores do BC
O presidente do BC também abordou o afastamento do ex-diretor Paulo Souza e do ex-chefe de departamento Belline Santana, após auditoria e sindicância instauradas para investigar suspeitas envolvendo o caso Master. Galípolo classificou o episódio como um dos mais graves da história da autoridade monetária.
“Foi gravíssimo. O afastamento de dois servidores de carreira do Banco Central é um dos fatos mais graves que já aconteceram na história do Banco Central”, afirmou.
Segundo ele, os processos foram encaminhados à Controladoria-Geral da União e comunicados à Polícia Federal.
Ao mesmo tempo, Galípolo procurou afastar acusações de perseguição política dentro da autarquia. Questionado por senadores sobre o termo de compromisso firmado entre o BC e Campos Neto, o presidente da autoridade monetária afirmou que o acordo seguiu rito técnico e independente.
Em junho do ano passado, Campos Neto concordou em pagar R$ 300 mil ao BC por falhas no preenchimento de informações relacionadas à verificação da legalidade de operações de câmbio e da qualificação de clientes enquanto atuava como diretor do Santander Brasil entre 2015 e 2017.
Galípolo afirmou que o caso envolvia um “preenchimento inadequado” de dados e destacou que as inconsistências representavam percentual próximo de zero das operações realizadas pelo banco no período. Segundo ele, o próprio Santander também foi multado em R$ 19 milhões pelo episódio.
“As decisões seguem governança técnica. Não cabe a mim perseguir ninguém”, disse.
O presidente do BC afirmou ainda que parte de seu mandato é impedir que a instituição seja transformada em instrumento político.
“O mandato que está escrito no Banco Central é cuidar da estabilidade financeira e monetária, mas existe um terceiro mandato que eu tenho perseguido muito: não deixar o Banco Central se transformar em qualquer tipo de palanque para política”, afirmou.
Atualmente, Campos Neto ocupa os cargos de vice-presidente do conselho de administração e chefe global de políticas públicas do Nubank.
*Com informações do Broadcast