Aposentadoria sem plano: 84% dos brasileiros não sabem como vão se sustentar no futuro
A aposentadoria ainda é um tema distante para a maioria dos brasileiros — e, na prática, pouco planejado.
Segundo o Raio X do Investidor Brasileiro 2026, da Anbima com o Datafolha, 84% chegam à vida adulta sem um plano de renda para o futuro, muitas vezes sem saber como irão se sustentar quando pararem de trabalhar.
Um em cada dez não faz ideia de onde virá o dinheiro na aposentadoria, enquanto três em cada dez não começaram — e nem pretendem começar — uma reserva.
O problema não é só falta de ação, mas de direção. Sem planejamento próprio, o brasileiro recorre ao INSS como principal estratégia: 60% dos não aposentados dizem que dependerão da previdência pública, percentual que vem crescendo nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, cai a parcela que espera continuar trabalhando (de 18% para 15%). Apenas 13% contam com investimentos, e só 5% mencionam previdência privada.
Problemas no caminho
A aposta quase coletiva no INSS ocorre em um momento delicado para o sistema previdenciário. O Brasil passa por uma crise estrutural da previdência pública, pressionada pelo envelhecimento acelerado da população, pela informalidade no mercado de trabalho e por desequilíbrios fiscais.
Hoje, quase 3 milhões de brasileiros enfrentam filas para conseguir dar entrada ou concluir pedidos de aposentadoria, mesmo após esforços recentes do governo federal para reduzir o tempo de análise.
Há também o problema do valor pago. A maioria dos benefícios do INSS está concentrada no piso previdenciário, de R$ 1.621 em 2026. O teto chega a R$ 8.475,55, mas é bem difícil de se conseguir.
Para a população das classes C, D e E, esses valores (corrigidos pela inflação ao longo do tempo) podem se enquadrar no padrão atual de vida. Pelo levantamento, a renda média da classe C é de R$ 3.565, enquanto a da classe D/E é de R$ 2.144.
Para a classe A/B, no entanto, essa renda média sobe para R$ 9.355, razoavelmente acima do teto do INSS. Ainda assim, 50% da população mais rica afirmou que a Previdência Social será sua fonte de sustento na aposentadoria.
De acordo com a Anbima, esse dado mostra uma discrepância relevante entre expectativa e realidade, principalmente para essa classe social mais abastada.
Atualmente, as rendas já não são compatíveis. Se ao longo dos próximos anos for feita uma reforma previdenciária, como muitos economistas afirmam ser necessário, essa diferença deve aumentar ainda mais, com diminuição do teto ou a ausência de ganho real (acima da inflação).
Expectativas sobre a aposentadoria
A pesquisa da Anbima indica que a maioria da população projeta deixar o mercado de trabalho entre 60 e 69 anos — uma expectativa que já reflete a elevação da idade mínima para se aposentar e a percepção de que trabalhar mais tempo será necessário.
Há uma parcela significativa da população (57%) que ainda não começou sua reserva para a aposentadoria, mas afirmou que pretende começar. Há também um percentual pequeno (16%) que já iniciou sua reserva.
Acontece que, mesmo olhando o copo meio cheio, o resultado aponta um cenário em que o planejamento de longo prazo é frágil.
A Geração Z e os Millennials destoam um pouco do retrato geral. Eles são os mais atentos ao debate sobre previdência pública — ainda que a poupança efetiva continue baixa.
Entre os jovens, a proporção dos que ainda não começaram a formar reserva, mas afirmam que pretendem começar, é a maior entre todas as gerações: 66% da Geração Z e 58% dos Millennials.
Entretanto, a Anbima pondera sobre como essa população ainda não tem uma vida financeira estável. Muitos estão em fase inicial de carreira, enquanto outros estão na universidade.
O grande desafio é mover o discurso do “pretende” para o “começou a guardar”. Até porque, quanto antes iniciar, mais resguardado o futuro estará.