Mercadante, sobre reestruturações financeiras: ‘Muitas empresas se apropriaram de dividendos e não se capitalizaram’
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que a distribuição de dividendos sem a adequada capitalização está entre os fatores que contribuíram para as dificuldades financeiras enfrentadas por grandes empresas brasileiras.
A declaração ocorreu durante o painel “Investimento e Crescimento: Papel do Financiamento Público e Privado”, do Macro Day 26, realizado pelo BTG Pactual na segunda-feira (31).
Segundo Mercadante, as recuperações judiciais e extrajudiciais recentes não possuem uma causa única. Enquanto algumas companhias enfrentaram problemas de gestão, outras foram afetadas por mudanças estruturais em seus mercados ou pelo elevado custo do crédito.
“Muitas empresas se apropriaram de dividendos e não se capitalizaram”, afirmou.
Entre as mudanças estruturais, Mercadante citou a transformação do varejo provocada pelo avanço do comércio eletrônico como um dos fatores por trás da crise de determinadas companhias.
“Há empresas que não perceberam a mudança do varejo, a entrada do comércio digital e as novas formas de competição”, disse.
Apesar das diferentes origens de cada crise, Mercadante argumentou que os juros elevados agravaram a situação financeira de companhias que realizaram investimentos contando com um cenário econômico mais favorável.
“Muitas empresas fizeram investimentos acreditando em uma trajetória e foram surpreendidas por uma taxa de juros muito elevada. Isso está pesando muito. Os juros estão fazendo estrago em muitas empresas. Precisamos de uma taxa de juros no padrão internacional. Esse precisa ser nosso compromisso como nação, para além da disputa eleitoral”, afirmou.
BNDES atua antes da recuperação judicial
Mercadante disse que o BNDES procura atuar de maneira discreta na busca por soluções para empresas em dificuldades, antes que elas precisem recorrer formalmente à recuperação judicial.
O presidente do banco citou a Braskem (BRKM5) e a Raízen (RAIZ4) como exemplos desse trabalho, sem fornecer detalhes sobre as negociações.
“Estamos trabalhando silenciosamente para encontrar soluções antes de a empresa entrar em recuperação judicial. Fizemos isso com a Braskem e com a Raízen para não chegarmos à RJ”, declarou.
A Braskem atravessa um processo de recuperação extrajudicial, em meio aos esforços para reorganizar sua dívida bilionária e fortalecer a estrutura de capital. Já a Raízen enfrenta um quadro de elevada alavancagem e busca reduzir seu endividamento.
Segundo Mercadante, o aumento dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial demonstra que os juros elevados já estão pressionando os balanços das empresas.
“O sistema bancário é extremamente sólido, mas, se os juros permanecerem nesse patamar, isso também vai chegar ao balanço dos bancos. E não há por que isso acontecer. Temos um sistema extremamente sólido”, afirmou.
Ajuste fiscal depende de pacto entre os Poderes
Questionado sobre a necessidade de um ajuste fiscal mais amplo, Mercadante afirmou que 93% do Orçamento federal é formado por despesas obrigatórias, o que limita a margem de atuação do Executivo.
Segundo ele, qualquer reforma estrutural depende da construção de uma maioria no Congresso e de um entendimento entre Executivo, Legislativo, Judiciário, estados e municípios. “Precisamos debater a questão fiscal além do óbvio”.
Entre os pontos que precisam entrar nessa discussão, Mercadante mencionou a Previdência, as emendas parlamentares e o avanço dos precatórios.
O dirigente evitou indicar uma despesa específica que deveria ser cortada, mas defendeu a construção de uma “consciência coletiva” em torno da necessidade de reduzir os juros.
Para Mercadante, uma taxa mais próxima dos padrões internacionais beneficiaria simultaneamente as empresas, as famílias e o próprio sistema financeiro.
“Baixar os juros tem que ser um compromisso nacional. Isso é bom para a indústria, para os bancos e para as famílias”, concluiu.