Orlando Telles: “Winner takes all” – entenda o que são plataformas de contratos inteligentes

17/09/2021 - 13:44
Em sua coluna de estreia no Crypto Times, Orlando Telles, sócio-fundador e diretor de research da Mercurius Crypto, fala sobre a competição no inovador setor das plataformas de contratos autônomos (Imagem: Freepik/upklyak)

“Winner takes all” — ou “o vencedor leva tudo”, em português —, é uma das frases mais comuns no universo de startups, especialmente no setor de tecnologia.

A ideia é que as principais empresas estão em uma disputa acirrada para oferecer o melhor produto possível aos clientes e, quem de fato conseguir alcançar esse feito, será o grande vencedor.

No mercado das criptomoedas, esse conceito está muito presente em alguns dos principais segmentos, como é o caso das plataformas de contratos inteligentes (ou autônomos) — blockchains que permitem o desenvolvimento de diversas aplicações na plataforma, conhecidos como aplicações descentralizadas (dapps).

Existem diversos exemplos de dapps, mas acredito que as mais conhecidas são as finanças descentralizadas (DeFi). As principais plataformas são EOS, Tron, Ethereum, Cardano e Steem.

2021, o ano das plataformas de contratos inteligentes

Este ano pode ser considerado um divisor de águas para as plataformas de contratos inteligentes.

Antes do desenvolvimento do mercado DeFi na rede da Ethereum, a ideia de contratos inteligentes era extremamente abstrata para a maioria dos desenvolvedores e investidores, o que inviabiliza a compreensão de valor de tokens, como o ether (ETH).

Em questão de meses, essa perspectiva mudou, após a consolidação do mercado DeFi.

O blockchain da Ethereum já transacionou mais de US$ 2.5 trilhões apenas no segundo trimestre de 2021, crescimento de mais de 1.490% em relação ao último ano.

Esse número fez com que essa rede se tornasse a maior da atualidade, tanto em volume transacionado como em taxas on-chain, superando o próprio Bitcoin.

Ethereum processa US$ 2,5 trilhões de transações no segundo trimestre de 2021 (Imagem: Messari)

As aplicações financeiras descentralizadas também apresentaram um crescimento significativo neste período e atingiram a marca de mais de US$ 180 bilhões em “capital travado em aplicações” (TVL) nas principais plataformas de contratos inteligentes.

Outros mercados também surgiram neste contexto, com destaque para tokens não fungíveis (NFTs).

NFTs criaram aplicações tanto no universo de games, com jogos no modelo “play to earn” (“jogue para acumular”) — o mais conhecido deles sendo o Axie Infinity — como em marketplaces de artes para a vendas de NFTs, como o OpenSea que, apenas em agosto deste ano, transacionou mais de US$ 1 bilhão.

Dores do crescimento

Nenhum ecossistema cresce mais de 1.400% sem apresentar problemas e gerar interesse de outros players do mercado. Esse ano também foi marcado pelas maiores taxas da rede da Ethereum, conforme algumas transações em DeFi só estavam sendo realizadas por mais de US$ 400.

Esse processo gerou um resultado inevitável: a impossibilidade de boa parte do mercado de varejo aproveitar as aplicações existentes na rede Ethereum. Foi o cenário perfeito para o desenvolvimento de outras plataformas de contratos inteligentes.

Uma das primeiras a se popularizar foi a Binance Smart Chain (BSC), blockchain com características muito similares à Ethereum, que permitia que as principais aplicações do ecossistema DeFi fossem copiadas.

Devido às semelhanças, em poucos dias surgiram ainda mais aplicações similares, como PancakeSwap, uma cópia do código da Uniswap na rede BSC. Entretanto, havia uma diferença fundamental entre essas duas redes: a descentralização.

Para se tornar uma rede barata e escalável em pouquíssimo tempo, a BSC optou por um modelo proof-of-stake (PoS) com apenas 21 validadores, os quais possuem uma grande ligação com a Binance.

Dessa forma, além de se tratar de uma rede bem mais centralizada que a Ethereum, BSC também apresentava um risco regulatório elevado, sendo uma grande barreira de entrada para a maioria dos investidores que já estavam na rede da Ethereum.

Valor total travado em plataformas de contratos inteligentes (Imagem: Messari)

Outras plataformas rápidas e (des)centralizadas

Com o risco regulatório de centralização e da BSC, outras plataformas de contratos inteligentes buscaram propor novos formatos em relação ao blockchain da Ethereum.

É importante destacar a Solana que, nos últimos meses, apresentou um crescimento exponencial devido aos mais de US$ 300 milhões recebidos em aporte para o crescimento do ecossistema.

Há, ainda, a Avalanche que, por meio de capital aportado pelos principaisventures capital” do mercado de criptomoedas, busca crescer e se consolidar entre as principais plataformas de contratos inteligentes.

O crescimento do número de concorrentes da rede da Ethereum, além de retirar parte do capital que estava travado na rede, também criou a necessidade de desenvolvimento de soluções de escalabilidade.

Para resolver esse desafio, dois grandes movimentos estão ocorrendo na rede da Ethereum.

O primeiro, Ethereum 2.0 (ou ETH 2), promete ser a maior atualização da história do ativo, alterando seu algoritmo de consenso e implementando um modelo de shards, formato de escalabilidade conhecido por múltiplas blockchains paralelas que deve ser finalizado até 2023

Na sequência, existem as soluções de segunda camada, ou seja, soluções paralelas à rede da Ethereum que registram a maioria das operações e enviam apenas informações essenciais para a rede.

Podemos destacar a Optimistic, Polygon e Arbitrum como as principais deste tipo, que já estão sendo adotadas pelas principais dapps da atualidade e reduzindo as taxas da rede Ethereum.

“Winner takes all?”

Em meio a essa competição de “qual é o blockchain mais completo”, quem ganha são os usuários; cada vez mais aplicações financeiras estarão ao dispor da comunidade cripto (Imagem: Unsplash/javaistan)

Com esse cenário de grande competição entre novos blockchains de contratos inteligentes e a busca da Ethereum por escalabilidade, é natural que os investidores se perguntem: “o vencedor desta corrida levará todo o potencial do mercado?”.

Ao meu ver, a resposta é não. O vencedor possivelmente levará boa parte do mercado de aplicações descentralizadas, mas é fundamental termos mais de um blockchain para eventuais “outliers” (acontecimentos não esperados) para reduzir o risco das aplicações existentes.

É loucura imaginar todas as principais aplicações do mundo dependendo apenas de um sistema.

A partir deste raciocínio, torna-se evidente que devemos esperar um futuro multichain e que as plataformas de contratos inteligentes, que buscam ser relevantes no mercado, precisam estar dispostas a se comunicar entre si.

O futuro do mercado de criptomoedas é multichain e as aplicações que compreenderem este processo tendem a “chegar primeiro” nesta corrida.

Orlando Telles é sócio-fundador e diretor de research da Mercurius Crypto, casa de pesquisa em criptoativos. 

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 17/09/2021 - 13:44

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