‘Ressaca’ da classe média brasileira muda estratégia de investimentos da Kinea
A classe média brasileira vive uma espécie de “ressaca” após anos de expansão do consumo sustentada por crédito, commodities e estímulos fiscais, sem ganhos proporcionais de produtividade, afirma a Kinea em relatório divulgado recentemente.
Para a gestora, o país criou uma sensação temporária de ascensão social que hoje dá lugar a endividamento elevado, perda de poder de compra e dificuldade crescente de manter o padrão de vida.
No relatório denominado “Parasita”, em referência ao filme sul-coreano vencedor do Oscar de 2020, a casa afirma que o Brasil “consumiu como se estivesse enriquecendo estruturalmente”, quando ainda operava sobre “bases frágeis”, apoiadas em crédito, renda externa favorável e expansão fiscal.
Segundo a Kinea, a expansão do consumo entre 2003 e 2013 foi impulsionada por uma combinação de alta das commodities, melhora dos termos de troca, avanço real do salário mínimo, expansão do crédito e atuação ativa do setor público por meio de transferências e crédito direcionado.
O período permitiu que milhões de famílias acessassem bens e serviços antes restritos a uma parcela menor da população, como carro próprio, viagens de avião e financiamento imobiliário.
A gestora, porém, avalia que a base desse avanço era estruturalmente frágil. O relatório argumenta que o país ampliou o consumo sem elevar a produtividade na mesma proporção, o que aumentou a dependência de crédito e de oferta externa para sustentar o padrão de vida da população.
Para a Kinea, os sinais dessa deterioração aparecem hoje no aumento do endividamento das famílias, na persistência da inadimplência e na dificuldade crescente de manter o padrão de consumo, mesmo em um cenário de desemprego próximo das mínimas históricas.
Dados do BC mostram que o indicador de endividamento chegou a 49,9% da renda acumulada em 12 meses em fevereiro, o maior patamar da série histórica iniciada em 2005. Já o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu 29,7%, cifra também recorde.
“Esse talvez seja o dado mais eloquente de todo o quadro. Em ciclos anteriores, melhora do emprego e avanço dos salários reais tendiam a aliviar a situação financeira das famílias. Hoje isso não basta”, afirma a gestora no documento.
O relatório destaca que o crédito deixou de funcionar apenas como ferramenta de antecipação de renda futura e passou, em muitos casos, a atuar como substituto de uma renda estrutural incapaz de sustentar as expectativas de consumo incorporadas pelas famílias ao longo da última década.
A deterioração também aparece no cotidiano da classe média. A Kinea exemplifica sua tese a partir do carro popular, que exigia cerca de 16,9 salários médios em 2013. Em 2025, o mesmo tipo de veículo passou a demandar 25,1 salários, tornando a compra cerca de 49% mais difícil no período.
Além dos automóveis, itens tradicionalmente associados ao padrão de vida da classe média, como plano de saúde, aluguel, educação privada e serviços, passaram a registrar aumentos acima da inflação geral e da evolução da renda média.
“O brasileiro médio não está apenas tentando subir. Em muitos casos, o objetivo é não descer”, avalia a equipe da gestora no documento.
‘Previsibilidade’ é a palavra nos investimentos
Na parte voltada aos investimentos, a Kinea afirma que o cenário de renda pressionada e endividamento elevado favorece empresas com receitas mais previsíveis, demanda menos sensível ao ciclo econômico e capacidade de geração de caixa no longo prazo.
“O desconto estrutural do Brasil não pode ser lido apenas como acidente de humor ou oportunidade automática de reprecificação. Parte relevante desse desconto reflete crescimento fraco, produtividade baixa, custo de capital elevado, volatilidade política e um consumidor estruturalmente pressionado” explica a equipe no documento.
Segundo a gestora, setores como saneamento, transmissão e distribuição de energia e concessões públicas tendem a oferecer maior resiliência em um ambiente no qual o consumo discricionário da classe média permanece fragilizado.
Entre os exemplos citados pela casa estão companhias como Sabesp (SBSP3), Copel (CPLE6), Axia (AXIA3) e Equatorial (EQTL3), que, segundo a Kinea, combinam fluxo de caixa mais estável, receitas indexadas e potencial de retorno ao acionista via dividendos e crescimento de lucros.
Já setores excessivamente dependentes de uma retomada ampla do consumo doméstico merecem cautela maior, na visão da gestora. O relatório afirma que o endividamento elevado das famílias e a dificuldade crescente de sustentar o padrão de vida limitam uma recuperação mais forte do consumo discricionário no país.
“Sem uma agenda longa de produtividade, educação, investimento e disciplina fiscal, seguiremos tentando sustentar um padrão de vida mais alto do que o crescimento estrutural consegue entregar”, afirma a Kinea. “Para o investidor, a implicação é clara: em um país assim, vale mais privilegiar resiliência, geração de caixa, fluxos previsíveis e carrego real do que apostar na volta automática de um ciclo de consumo amplo e despreocupado”, completa.