Tesouro IPCA+: juro real recorde impulsiona corrida de investidores e vendas saltam 73% no semestre
A disparada das taxas do Tesouro IPCA+ no primeiro semestre de 2026 desencadeou uma corrida dos investidores pelos títulos públicos atrelados à inflação. As vendas da modalidade somaram R$ 18,8 bilhões entre janeiro e junho, um salto de 73% em relação aos R$ 10,9 bilhões captados no mesmo período de 2025, segundo dados do Tesouro Direto.
O movimento evidencia que os investidores responderam rapidamente à janela de oportunidade criada pela abertura das taxas. Ao longo do semestre, gestores e estrategistas passaram a defender que os títulos públicos ofereciam uma das remunerações mais atrativas dos últimos anos, e os números mostram que os investidores aproveitaram o momento para travar retornos elevados de longo prazo.
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O pico da demanda ocorreu justamente quando as taxas atingiram os maiores níveis do ano. Em junho, o Tesouro IPCA+ registrou taxa média de 7,64% ao ano acima da inflação, enquanto o título com vencimento em 2032 alcançou 8,47%, recorde da série. No mesmo mês, as vendas chegaram a R$ 5,1 bilhões, o equivalente a cerca de 27% de toda a captação do semestre e aproximadamente 40% acima do segundo melhor resultado do período.
A relação entre o avanço das taxas e o aumento das compras aparece ao longo de todo o semestre. Em janeiro, quando os juros reais começaram a ganhar força, o Tesouro vendeu R$ 3,4 bilhões em títulos IPCA+. Em março, mês marcado por uma nova abertura das curvas por conta da incerteza internacional, as vendas permaneceram elevadas, em R$ 3,5 bilhões. Após uma acomodação em abril e maio, a nova escalada das taxas em junho levou a demanda ao maior nível de 2026.
O avanço do Tesouro IPCA+ também superou com folga o desempenho dos demais títulos públicos. Embora o Tesouro Selic tenha permanecido como a modalidade mais procurada pelos investidores, devido ao alto patamar da taxa Selic, as vendas cresceram 23% na comparação anual, passando de R$ 24,9 bilhões para R$ 30,7 bilhões no primeiro semestre. Com isso, o IPCA+ ganhou participação nas emissões do Tesouro Nacional, reduzindo a distância para o pós-fixado: o volume vendido passou a representar 61% das vendas do Tesouro Selic, ante 44% no mesmo período de 2025.
A preferência também ficou concentrada na versão tradicional do título, voltada para quem busca acumular patrimônio até o vencimento. Entre janeiro e junho, o Tesouro IPCA+ sem pagamento de juros semestrais respondeu por R$ 15,6 bilhões, o equivalente a 83% de toda a captação da modalidade. Já a versão com cupons semestrais somou R$ 3,2 bilhões, ou 17% do total. Em junho, no auge da abertura das taxas, essa preferência ficou ainda mais evidente: apenas cerca de 10% das compras foram direcionadas aos papéis com distribuição periódica de rendimentos.
A abertura dos juros reais refletiu uma combinação de fatores que elevou o prêmio exigido pelos investidores para financiar a dívida pública. Entre eles estão as incertezas sobre a trajetória das contas públicas, a proximidade do período eleitoral, a inflação ainda acima do teto da meta, a perspectiva de manutenção da Selic em patamar elevado e o ambiente de juros altos no exterior, especialmente nos Estados Unidos e no Japão.
Taxas muito altas representa algum perigo?
O avanço das taxas também chamou a atenção do governo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que o Tesouro Nacional está preparado para atuar no mercado caso considere necessário preservar a liquidez dos títulos públicos. Recentemente, o órgão chegou a suspender um leilão de NTN-Bs, movimento que contribuiu para aliviar temporariamente as taxas.
Ceron também contestou a avaliação de que a alta dos juros reais decorre exclusivamente das preocupações com o cenário fiscal. Segundo ele, atribuir o comportamento dos títulos indexados à inflação apenas a esse fator representa uma leitura “pobre” e “superficial” do mercado.