A repressão chinesa poderá tornar a mineração de bitcoin mais sustentável?

12/06/2021 - 11:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Conforme a nuvem cinza de uma repressão a cripto na China se estende, a possibilidade de mineradores chineses migrarem suas fazendas para fontes de energia renovável pode ser algo bom (Imagem: Pixabay/vjkombajn)

Entender os efeitos reais do consumo energético do bitcoin (BTC) e se é algo danoso é um assunto complexo. Por que a rede Bitcoin precisa de tanta eletricidade? Quão importante é a rede Bitcoin para seus usuários?

Talvez a pergunta mais importante seja: “quanto carbono realmente emite?” em vez de “quanta eletricidade consome?”.

Dados mais recentes do Centro de Cambridge para Finanças Alternativas (CCAF, na sigla em inglês) afirma que a rede Bitcoin consome 115,84 terawatts/hora (TWh) por ano.

Isso é cerca de 0,52% do consumo total do mundo e põe a mineração de bitcoin entre os Países Baixos e os Emirados Árabes Unidos como uma consumidora global de eletricidade. Porém, a realidade por trás do impacto energético do Bitcoin tem suas nuances.

Consumo elétrico anual do Bitcoin (Imagem: CCAF)

Qual é o valor do bitcoin ao mundo?

O Bitcoin é uma rede descentralizada e segura de pagamentos para usuários que desejam enviar e receber dinheiro.

Além disso, o bitcoin é uma tecnologia digital inovadora. Opera livremente do controle de autoridades centrais, como bancos ou governos. Um livro-razão público registra todas as transações do Bitcoin e cópias desse livro são mantidas em servidores ao redor do mundo.

Qualquer pessoa como um computador pode configurar um desses servidores — chamados de “nós”.

O consenso de quem possui quantas moedas é obtido de forma criptográfica entre esses nós em vez de depender de uma fonte central de confiança, como um banco. A rede Bitcoin depende de sua natureza ponto a ponto para suas operações e criptografia.

O Bitcoin — e a tecnologia blockchain, como um todo — solucionou o problema de “gastos duplos” e permitiu a digitização de valor.

Há décadas, muitos setores da indústria foram abalados por que não puderam solucionar esse problema. Músicas e softwares, por exemplo, podem ser copiados e as cópias são réplicas idênticas, sem perda de qualidade ou função.

É claro que se o dinheiro pode ser digitalmente copiado da mesma forma, não teria valor. O registro distribuído do Bitcoin soluciona esse problema.

Se uma tentativa de gasto duplo é feita, os nós não irão verificar a segunda transação e a integridade da moeda é mantida — automaticamente e sem qualquer envolvimento de bancos ou governos. É um divisor de águas.

A natureza relativamente barata e acessível do processo de transferência monetária do Bitcoin ofereceu aos cidadãos que lidam com sistemas financeiros falidos em países com políticas instáveis — como o Líbano, a Síria, o Brasil e a Argentina — um sistema bancário alternativo.

Permite que pessoas sejam diretamente pagas por um empregador estrangeiro por serviços, como desenvolvimento de software, e não tenham de lidar com um processo lento e complicado de câmbio de moedas ou a inflação local da moeda.

Além do uso em ambientes politicamente caóticos, o Bitcoin é utilizado em muitas grandes economias — como Rússia, China e os EUA — como uma ferramenta de escape da inflação e repressão monetária ou de controles de capital.

Porém, existe uma desvantagem. Garantir a informação e o valor armazenados na rede de forma verdadeiramente descentralizada exige bastante poder de processamento — principalmente conforme o bitcoin cresce em grande escala.

Como resultado do recente ciclo de alta no preço do bitcoin, por exemplo, o consumo elétrico da rede aumentou 138,16% apenas no ano passado.

A mineração de bitcoin e o cálculo de eletricidade

O bitcoin usa e sempre irá usar muita eletricidade — por enquanto, não há como ignorar esse fato. O motivo é que o bitcoin e outras criptomoedas “proof-of-work” (PoW) são produzidas por blocos “mineradores”.

Basicamente, funciona da seguinte forma: a rede Bitcoin produz uma quantidade constante de bitcoins a cada dez minutos (um bloco).

Esses bitcoins são produzidos por bancos de computadores poderosos chamados de mineradores, que solucionam complexos problemas matemáticos e são recompensas com bitcoin ao fazê-lo — que, em seguida, vendem no mercado para financiar suas operações.

O número de mineradores do setor é medido pela taxa de hashes que é, basicamente, uma medida de quanto poder computacional está sendo aplicado à rede.

Quanto mais mineradores entrarem para o setor, mais poder é aplicado à mineração de Bitcoin e a dificuldade de problemas matemáticos aumenta para garantir que a produção de bitcoins seja consistente, com um bloco a cada dez minutos.

É uma peculiaridade da rede de que mais mineradores resultem em uma maior dificuldade e um maior consumo de energia.

O protocolo Bitcoin pode ser sustentável?

Dada a realidade desse consumo energético, como ficam as pessoas que, enquanto evangelistas do bitcoin, como Elon Musk e outros, fãs do potencial de disrupção do bitcoin, estão preocupadas com o impacto de carbono do ativo?

Se é sabido que a rede Bitcoin ainda vai continuar exigindo grandes quantias de eletricidade para impulsionar uma descentralização justa e segura, seu consumo elétrico poderia ser mais limpo?

Nic Carter, sócio-fundador da empresa de capital de risco Castle Island Ventures, contou à Bloomberg que mineradores de bitcoin querem respeitar o meio ambiente.

Ele afirma que grande parte dos mineradores têm “posições compradas”, ou seja, armazenam bitcoin e usam seus lucros da mineração para comprar mais bitcoins.

É de interesse deles melhorar a eficiência de carbono da rede para evitar que o Bitcoin seja alvo de agências ambientais e governamentais e avance ao se tornar uma tecnologia mais sustentável.

O Terceiro Estudo Global de Criptoativos do CCAF, publicado em setembro de 2020, estima que, atualmente, cerca de 39% da mineração proof-of-work é alimentada por energias renováveis.

As pesquisas realizadas também descobriram que 76% dos mineradores usavam energias renováveis como parte de sua matriz energética.

Então como esse perfil de utilização está geograficamente dividido? Usando dados de geolocalização de fontes, como endereços de IP ou hashers conectados aos pools BTC.com, Poolin e ViaBTC, o CCAF mapeou onde existe o consumo elétrico do Bitcoin.

Grande parte do poder de hashes gerado pela rede Bitcoin é produzido na China (Imagem: CCAF)

Segundo o CCAF, a taxa de hashes na região Ásia-Pacífico (incluindo a China) é alimentada por uma mistura de geração de carvão e hidroeletricidade.

Uma matriz mais ampla de fontes de energia, com fontes mais limpas de emissão, como energia eólica e nuclear, é usada por mineradores norte-americanos.

Hashers norte-americanos parecem estar usando uma ampla gama de fontes de energia (Imagem: CCAF)

A mineração de criptomoedas com carvão é bastante utilizada nas províncias chinesas de Xinjiang e da Mongólia Interior, bem como no Cazaquistão, onde a energia hidroelétrica é amplamente gerada nas regiões sudoestes da China (Sichuan e Yunnan).

Existe a hipótese de que a mineração de criptomoedas, ao obter vantagem da oferta excessiva de energia hidrelétrica durante a temporada de chuvas, entre maio e outubro, não é tão danosa ao meio ambiente como parece.

O impacto de energias renováveis na China está aumentando rapidamente (Imagem: Unsplash/tylercaseyprod)

Embora exista certa verdade a esse argumento e mineradores em Sichuan e Yunnan estejam usando energia renovável de hidrelétricas, os dados do CCAF mostram que grande parte do poder de hashes de mineração na China é produzido em Xinjiang.

A região é um grande núcleo de mineração de carvão e, assim, é provável que durante grande da existência do Bitcoin, a taxa de hashes produzida nessa região tenha sido gerada com o uso de carvão.

Participação média mensal da taxa de hashes total (Imagem: CCAF)

Porém, essa narrativa está mudando conforme a China começou a desenvolver fazendas eólicas em Xinjiang. Embora o carvão ainda domine a produção energética chinesa, atualmente só é responsável por cerca de 65% da capacidade — abaixo de 79% em 2011.

No mesmo período, a China aumentou o total de produção de energias renováveis (hidroelétrica, termal, solar e eólica) em 50% e o objetivo é ser neutra em carbono até 2060.

Além disso, em uma iniciativa surpreendente em 2017, a Administração Nacional Chinesa de Energia cancelou a produção de 103 novas usinas de carvão conforme a capacidade renovável aumentava e foi anunciado que muitas usinas de carvão estavam operando bem abaixo de sua capacidade.

Produção de eletricidade na China por fonte (Imagem: Kaj Tallungs)

É provável que mineradores de Bitcoin não saiam da China

Maio de 2021 não foi um bom mês para o protocolo Bitcoin. Em 13 de maio, Elon Musk anunciou que a Tesla (TSLATSLA34), iria parar de aceitar bitcoin na aquisição de seus veículos.

De início, ele havia citado o uso de combustíveis fósseis durante o processo de mineração de bitcoin e seu “grande custo ao meio ambiente” como o motivo da suspensão.

Essa decisão aconteceu mesmo a Tesla tendo adquirido US$ 1,5 bilhão em bitcoin em fevereiro e Musk ter apoiado o Bitcoin como uma rede emergente de pagamentos e, até mesmo, uma tecnologia que encoraja o uso de energias renováveis.

Uma semana depois, em uma reunião do Comitê de Estabilidade Financeira e de Desenvolvimento do Conselho Estatal da China, o vice-premier Liu He sugeriu que, em breve, a China iria “reprimir a conduta de negociação e mineração de bitcoin” para “evitar firmemente a transmissão de riscos individuais à sociedade”.

Embora a negociação e a atividade de negociação de criptomoedas estejam banidas na China desde 2017, a mineração, a posse privada de criptomoedas e a negociação em mercados de balcão (OTC) ainda podem ser realizadas legalmente.

Isso está prestes a mudar? Após o discurso de He, o preço do bitcoin despencou e rumores começaram a circular de que mineradores chineses estavam vendendo suas posições e bitcoin e saindo do ecossistema cripto.

Esses rumores parecem ser infundados. Wu Blockchain, o popular jornalista chinês sobre blockchain, afirma que a taxa de hashes chinesa parece não ter tido oscilações perceptíveis e sugere que mineradores só estão esperando para ver quais serão as políticas específicas do governo chinês.

Matthew Graham, capitalista de risco do Sino Global Capital, afirma que observadores ocidentais reagiram exageradamente ao que só eram poucas linhas de um discurso muito longo.

Ele afirma que, na verdade, o discurso foi um alerta bem padrão sobre a especulação em excesso do varejo nos mercados de investimento — algo que o governo chinês sempre faz.

Embora ainda haja confusão sobre quais são as intenções de Musk no setor Bitcoin, ele parece estar voltando atrás em seus comentários e, em vez disso, está usando sua influência para impulsionar uma produção mais limpa do Bitcoin.

Em uma participação recente à conferência Consensus 2021, Michael Saylor, CEO da MicroStrategy (MSTR) e megadefensor do bitcoin, anunciou a formação do Bitcoin Mining Council.

Saylor afirma que o grupo “autônomo” será formado será formado por uma seleção de mineradoras norte-americanas e trabalhar na publicação de dados transparentes de utilização de energia na mineração.

A missão do conselho é abordar preocupações e narrativas negativas de que o bitcoin não seja ecológico.

Saylor afirma que Musk e um grupo de oito mineradoras norte-americanas, cujo controle da taxa de hashes é estimado em 10%, já se encontraram para discutir o uso de energia da rede.

No Twitter, Musk sugeriu que a reunião teve um resultado “promissor”. A formação do conselho de mineração de bitcoin parece ter sido direcionada por essa reunião inicial.

Uma possível explicação de por que Musk está preocupado com o consumo do Bitcoin por energias renováveis é o sucesso que a Tesla teve em vender créditos regulatórios.

Em uma tentativa de reduzir emissões industriais de carbono, governos em todo o mundo apresentaram incentivos para que montadoras de carros desenvolvessem veículos elétricos em troca de créditos revendáveis.

Já que a Tesla só vende carros elétricos, recebe bastantes créditos e os revende a outras fabricantes que não atendem requisitos regulatórios.

Esse processo se tornou um dos maiores direcionadores de preço da empresa. É vantajoso para todos os envolvidos, mas menos para a Tesla e seus acionistas se a narrativa em torno das altas posses de bitcoin da empresa se tornar menos sustentável.

Michael Burry, conhecido por ter sido retratado no livro “A Jogada do Século”, disse que a dependência da Tesla no modelo de lucros baseado em créditos é um sinal vermelho e, recentemente, apostou US$ 534 milhões contra a fabricante de carros elétricos, afirmando que suas ações irão cair.

Conforme as emissões de carbono da rede Bitcoin estão sendo cada vez mais criticadas, a tentativa de Musk em passar na frente do restante da indústria cripto e estabelecer um setor mais limpo e sustentável de mineração de bitcoin que pode obter vantagem de um ambiente regulatório que favorece mineradores que usam energias renováveis.

Ao mesmo tempo, a China está se tornando cada vez mais ecológica e, embora a possibilidade de uma China neutra em carbono até 2060 pareça bem distante, não vai demorar tanto quando consideramos que, na taxa atual de produção, o último bitcoin não será minerado até o ano 2140.

Então, se a produção de bitcoins permanecer na China, sua pegada de carbono precisa diminuir — o que o presidente Xi quiser o presidente Xi consegue.

De forma alternativa, se os alarmistas estiverem certos e a mineração seja proibida na China, então uma maior dispersão global da taxa de hashes será boa para a rede a longo prazo — derrubando o mito de que o Bitcoin é controlado pela China — e mover sua produção para regiões com maior transparência e supervisão ambiental.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 10/06/2021 - 15:22

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