Entrevista

‘Desenrola atrás de Desenrola’: Por que o excesso de estímulos pode travar a queda da Selic

08 maio 2026, 11:30 - atualizado em 08 maio 2026, 11:55
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(Imagem: Divulgação)

O novo Desenrola Brasil, lançado pelo governo federal nesta semana, reacendeu o debate sobre os efeitos dos programas de estímulo ao crédito em um momento em que o Banco Central ainda tenta conter a inflação através de juros elevados.

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Para Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime, a iniciativa ajuda famílias endividadas no curto prazo, mas também reforça um cenário em que parte do efeito da Selic acaba “drenado” por medidas de incentivo ao crédito.

“O programa, olhando de maneira pontual, é bem-vindo para fazer com que as pessoas consigam sair dessa questão do endividamento e resolver a sua vida financeira”, afirmou a economista, em entrevista ao Money Times. “O problema é quando você começa a ter Desenrola atrás de Desenrola.”

O programa permitirá a renegociação de dívidas de até R$ 15 mil por pessoa, com descontos entre 30% e 90% e juros limitados a 1,99% ao mês. Entre as modalidades incluídas estão dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e também do Fies.

O relançamento acontece em um momento de forte deterioração do endividamento das famílias brasileiras. Dados do BC mostram que o indicador de endividamento chegou a 49,9% da renda acumulada em 12 meses em fevereiro, o maior patamar da série histórica iniciada em 2005. Já o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas atingiu 29,7%, cifra também recorde.

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Segundo Kawauti, medidas como o Desenrola ajudam a aliviar a situação financeira das famílias, mas também entram em uma discussão mais ampla sobre o crescimento do crédito subsidiado e direcionado no Brasil.

Na visão dela, o excesso desses estímulos reduz a eficiência da política monetária e dificulta o trabalho do Banco Central no combate à inflação. “Nem toda Selic de 14,5% chega à economia”, resumiu a economista.

Selic é drenada por crédito subsidiado

Kawauti destaca que a política monetária depende dos chamados canais de transmissão para funcionar.

Na prática, o BC sobe os juros esperando encarecer o crédito, desacelerar a demanda e conter a inflação. O problema, segundo ela, é que uma parcela relevante do crédito no país não responde da mesma forma às mudanças da Selic por estar ligada a programas subsidiados ou direcionados.

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Para ilustrar esse cenário, a economista comparou a política monetária a uma “mangueira furada”. Mesmo com o Banco Central mantendo a “torneira aberta” nos juros, parte da força desse aperto se perde ao longo do caminho por conta dos programas de incentivo ao crédito, que funcionariam como “furos” na mangueira. Assim, a potência da Selic não chega à economia real com a intensidade esperada pela autoridade monetária.

“Parte desses 14,5% é drenada pelo crédito subsidiado”, afirmou. “Quanto mais dreno tem da política monetária, mais alta tem que ser a taxa de juros.”

A economista pondera que linhas subsidiadas têm papel importante na economia, especialmente em programas voltados para habitação, pequenas empresas e setores estratégicos.

Entre os exemplos citados por ela estão o crédito imobiliário, linhas do BNDES e programas de incentivo para pequenos empreendedores. O risco, porém, aparece quando há um acúmulo desses estímulos funcionando ao mesmo tempo.

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“O problema é quando você tem um conjunto muito grande de incentivos que acaba trazendo ineficiência para a economia”, disse.

Segundo Kawauti, esse movimento não é exclusivo do atual governo. O crédito direcionado vinha em trajetória de queda após 2016, quando saiu de quase metade da carteira total de crédito do país para um patamar próximo de 40%. No entanto, a participação voltou a subir a partir de 2022 e já se aproxima novamente de 45% do total da carteira da economia brasileira.

Na avaliação da economista, o aumento dos estímulos ao crédito também pode gerar efeitos indiretos sobre a inflação ao sustentar o consumo em um momento em que o Banco Central tenta esfriar a atividade econômica. “Quando você tem crédito subsidiado além do necessário, você cria incentivo ao consumo”, afirmou, destacando que esse impacto aparece principalmente na inflação de serviços.

Selic mais alta por mais tempo

Mas isso significa que a Selic deveria subir? Para Kawauti, não necessariamente. A economista ressalta que os juros atuais já estão em um patamar extremamente elevado. “Juros a 14,5% são altíssimos”, disse. Segundo ela, a taxa elevada penaliza tanto famílias quanto empresas que dependem de financiamento para consumir, investir e expandir projetos.

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O ponto central, porém, é que o avanço do crédito subsidiado pode obrigar o Banco Central a manter juros altos por mais tempo para produzir o mesmo efeito sobre a atividade econômica e a inflação. “Se a gente não tivesse o crédito subsidiado em um patamar tão elevado, provavelmente teria juros menores no longo prazo”, afirmou.

Kawauti avalia ainda que o ambiente político deve manter essa discussão no radar do mercado nos próximos meses. Segundo ela, a disputa eleitoral ainda indefinida aumenta o incentivo para novas medidas de estímulo fiscal e expansão de programas de crédito por parte do governo.

“Quem está sentado na cadeira de presidente tem a possibilidade de fazer esses programas”, afirmou. Para a economista, a combinação entre eleições apertadas e o aumento da arrecadação com royalties do petróleo abre espaço para iniciativas adicionais de incentivo à economia até o próximo ano.

Na visão dela, esse cenário reforça a percepção de que o Banco Central terá pouco espaço para acelerar o ciclo de cortes de juros. “A sensação é que o BC vai continuar cortando juros, mas provavelmente vai parar antes dos 13%”, disse.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
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