Coluna
Economia Direto ao Ponto

Pausa nos juros seria opção mais prudente?

08 maio 2026, 15:13 - atualizado em 08 maio 2026, 15:13
A maioria dos BCs das principais economias manteve os juros estáveis na última reunião e sinalizou uma postura cautelosa para o cenário adiante. (Imagem: iStock/ Andrzej Rostek)

A verdade sobre o conflito no Oriente Médio é que o nível de incerteza sobre quase todos os aspectos — duração, extensão e desdobramentos para os ativos financeiros — é muito elevado.

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Para os bancos centrais no mundo todo, não é diferente. A maioria dos BCs das principais economias manteve os juros estáveis na última reunião e sinalizou uma postura cautelosa para o cenário adiante.

Há bons motivos para isso. Nos mercados internacionais, desde o início do conflito, o barril de petróleo subiu aproximadamente 60%; fertilizantes, de 30% a 50%; fretes de contêineres, 50%; gasolina, 80%; polietileno, 20%; alumínio, 15%; entre outros.

Choques de custo dessa magnitude já começaram a atingir a economia global, e seus impactos econômicos, diretos e indiretos, tendem a se acentuar nos próximos meses.

A literatura econômica é clara sobre o receituário de política monetária em situações como essa. Se o BC acredita que o choque é temporário, e essa crença é compartilhada pelos agentes econômicos, as expectativas de inflação para prazos mais longos pouco se alteram, já que os impactos tendem a se dissipar conforme a situação fique para trás.

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Nesse caso, faz sentido que os BCs não alterem sua estratégia de curto prazo em função do choque. No entanto, a intensidade e a duração do choque, assim como o contexto em que ele ocorre, importam.

A intensidade dos movimentos tem se mostrado indiscutivelmente grande, assim como sua abrangência, já que afeta o preço e a disponibilidade do petróleo. Há também impactos relevantes sobre vários outros mercados, bens e serviços.

Por isso, embora o mercado precifique a reabertura do estreito de Ormuz até o fim de junho, as expectativas de inflação de dois anos à frente nas principais economias do mundo estão significativamente acima dos níveis pré-conflito.

Por isso, BCs no mundo todo têm repensado suas estratégias e adotado maior cautela enquanto aguardam os desdobramentos da crise atual.

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Por aqui, ainda que a sinalização de maior cautela esteja presente na comunicação recente do BC, inclusive com destaque para a ampliação do balanço de riscos, a estratégia de curto prazo não se alterou: a Selic segue sendo reduzida a um ritmo de 0,25 ponto percentual por reunião, e a indicação é de que seguirá nesse ritmo nos próximos meses.

O principal argumento para a manutenção do ritmo de cortes é que o atual nível de juros é muito elevado e que reduções nesse ritmo são lentas o suficiente para permitir a calibração do tamanho do ciclo enquanto se observam os efeitos sobre a economia.

De fato, os juros são elevados, até para os padrões históricos do país.

Seja levando em consideração os juros e a inflação esperados, seja valores passados, a taxa real de juros tem oscilado em torno de 10%. Quase a totalidade dos economistas argumentaria que esse nível de juros reais está acima daquele considerado neutro para a economia e, portanto, estaríamos em um patamar ainda restritivo para a atividade.

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Alguns sinais de que isso, de fato, está ocorrendo são encontrados no agravamento das condições financeiras de famílias e empresas.

Do lado das famílias, endividamento e comprometimento de renda seguem em níveis recordes. Entre as empresas, a deterioração do mercado de crédito privado tem evidenciado problemas de alavancagem.

No entanto, apesar da percepção de que os juros ainda estão muito altos, isso não encontra respaldo claro em outros indicadores importantes. A inflação projetada pelo Banco Central para o fim do próximo ano, já considerando a Selic em 13% em 2026 e 11% em 2027, fica em 3,5%, acima da meta. Do mesmo modo, as expectativas não sugerem convergência para a meta.

No âmbito da atividade econômica, a desaceleração tem sido apenas moderada, insuficiente para provocar qualquer enfraquecimento relevante do mercado de trabalho. Este, por sua vez, segue extremamente aquecido, tanto no emprego quanto na renda.

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Tudo isso coloca o Banco Central em uma situação delicada, com riscos e custos relevantes ao optar por uma postura mais ou menos cautelosa. A escolha, no momento, parece ser a de apostar no cenário mais benigno.

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Economista no banco BV
Carlos Lopes é economista no banco BV desde 2013 e já passou por instituições financeiras como Itaú BBA, Banco Fibra e WestLB. É formado pela Universidade de São Paulo e tem mestrado no Insper.
Carlos Lopes é economista no banco BV desde 2013 e já passou por instituições financeiras como Itaú BBA, Banco Fibra e WestLB. É formado pela Universidade de São Paulo e tem mestrado no Insper.
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