Magazine Luiza (MGLU3) derrete 50% no ano sob pressão de juros, concorrência e consumo; há saída?
As ações do Magazine Luiza (MGLU3) ocupam o posto de pior queda do Ibovespa (IBOV) no ano de 2026, ao menos até o dia 26 de junho. A varejista registra uma derrocada da ordem de 50% no acumulado do ano.
O movimento expressivo de queda ocorre desde a divulgação dos números do primeiro trimestre de 2026, em 7 de maio. No período de janeiro a março, o Magalu registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 33,9 milhões, revertendo o lucro registrado um ano antes.
Na leitura de Caroline Sanchez, analista da Levante Corp., não existe apenas um motivo que justifique o desempenho negativo na Bolsa, mas, sim, um conjunto de pressões simultâneas que derrubam as ações e criam um desafio para a tradicional varejista.
Neste sentido, Sanchez destaca três fatores: o impacto da taxa básica de juros (Selic) nas despesas financeiras; o acirramento da concorrência no e-commerce; e o comportamento do consumidor.
Os “inimigos” do Magazine Luiza
A Selic elevada é apontada como o maior inimigo do Magazine Luiza nesse momento, uma vez que empresas com dívida relevante acabam pagando mais caro para rolar os passivos, o que se reflete diretamente na linha de despesas financeira do balanço, pontua Caroline Sanchez.
No caso do Magalu, as despesas financeiras líquidas totalizaram R$ 568,7 milhões, equivalentes a 6,2% da receita líquida, no primeiro trimestre de 2026.
Em relação ao mesmo período do ano anterior, as despesas aumentaram 16,5%, devido, principalmente, ao aumento da taxa de juros, que subiu de 12,25%, no início do primeiro trimestre de 2025, para 15%, no mesmo período de 2026.
“Isso [impacto dos juros nas despesas financeiras] acaba reduzindo o lucro final, mesmo quando a operação vai bem. E o Magalu tem uma dívida que somava quase R$ 3,5 bilhões no final do primeiro trimestre. Com a Selic alta, acaba pesando muito nessa conta”, analisa Sanchez.
Outro fator destacado pela analista é a concorrência no e-commerce, especialmente marketpleces, com o acirramento da “guerra” entre os players que comercializam produtos de ticket médio mais baixo, de uma forma tida como “irracional” pelo próprio Magazine Luiza.
Frederico Trajano, CEO da companhia, tem enfatizado que o Magalu permanece priorizando margens em vez de crescimento e não pretende entrar, principalmente no online, na “guerra de preços” que continua acontecendo — a exemplo do movimento estratégico de nomes como o Mercado Livre.
Por fim, o endividamento das famílias brasileiras, que impacta a venda de produtos de ticket médio mais alto, que comumente demandam parcelamento para um público mais sensível a juros.
De acordo com dados do Banco Central, o endividamento das famílias atingiu 49,8% da renda disponível em março de 2026, ante 41,5% no início de 2020.
Relatório de 17 de junho do BTG Pactual aponta para um segundo semestre de 2026 com as famílias brasileiras em um dos níveis de comprometimento financeiro mais elevados da história recente.
Na prática, o BTG pondera que as famílias brasileiras estão destinando quase um terço da renda mensal ao pagamento de juros e amortização de dívidas, reduzindo o espaço tanto para o consumo discricionário quanto para a poupança.
“Sob a ótica setorial, vestuário, móveis, eletrônicos, artigos para o lar e outras categorias discricionárias parecem ser as mais vulneráveis a um período prolongado de juros elevados. Essas categorias normalmente combinam três características que as tornam particularmente sensíveis a condições financeiras mais restritivas: ticket médio mais elevado, maior dependência do crédito ao consumidor e menor grau de essencialidade”, diz a equipe liderada por Luiz Guanais.
Existe luz no fim do túnel?
Para Caroline Sanchez, o caminho para uma luz é estreito e depende de fatores que não estão sob o controle do Magazine Luiza, como é o caso da Selic. O principal gatilho hoje seria justamente uma queda mais consistente dos juros, que não está no cenário-base atual.
Como ponto positivo, a analista avalia que a companhia vem racionalizando bem a operação, redirecionando estratégia para as lojas físicas, de margens maiores, onde o Magalu tem uma vantagem competitiva bem estabelecida.
“Também temos um segundo semestre com uma sazonalidade melhor e devem colher algo pontual de Copa do Mundo”, diz Sanchez, tendo em vista o impulso no consumo de produtos como televisores.
Durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre, Frederico Trajano compartilhou a expectativa de continuidade do ciclo de cortes nos juros ao longo dos próximos trimestres, ainda que em outro ritmo.
“As sinalizações são que os juros vão continuar caindo. Imagine que em algum momento o mercado vai ter que ser mais racional no online também, porque vai haver pressão para que isso aconteça. E, para nós, temos aí segundo trimestre da virada, que é o tri que tem a Copa do Mundo, que sazonalmente é sempre muito positiva pra gente”, disse o CEO à época.
Para Caroline Sanchez, o mercado ainda está bastante cético sobre o ponto de virada da companhia. A analista destaca que existe quem veja uma assimetria no preço atual, mas não se trata de uma tese para quem precisa de um resultado rápido.
Além da trajetória dos juros e da evolução do e-commerce versus lojas físicas como catalisadores para o Magazine Luiza, Sanchez chama atenção para o MagaluPay, a vertical financeira da varejista.
“A base de cartões superou 5,5 milhões de unidades com melhor inadimplência acima de 90 dias. Se o braço financeira ganhar escala, rentabilidade, ele pode ser um diferencial importante dentro dessa equação do Magalu no médio prazo. Mas ainda é uma aposta, não é uma realidade consolidada”, afirma.
Na plataforma TradeMap, MGLU3 tem 8 recomendações, sendo 7 de manutenção e 1 de venda.