Rali de ações tech afasta estrangeiros da bolsa brasileira, segundo Citi e Safra; veja o que pode ajudar o Brasil
O Citi aponta, em relatório, que a entrada de fluxo estrangeiro para o Brasil, que havia atingido um pico de R$ 70 bilhões em 2026 até meados de abril, recuou para R$ 50 bilhões como um possível reflexo do renovado interesse em inteligência artificial (IA), especialmente via ações de semicondutores e agora também fabricantes de Unidades Centrais de Processamento (CPUs, em inglês).
O Banco Safra corrobora a visão do Citi e acrescenta que a temporada de resultados nos Estados Unidos trouxe números fortes, acima do esperado pelo mercado, com novo fôlego para o setor de tecnologia e projeções de capex elevadas, o que contribuiu para a interrupção da entrada dos norte-americanos no mercado brasileiro.
Para o banco, os balanços domésticos, em contrapartida, ficaram levemente abaixo do esperado, como consequência da inadimplência mais alta, custos com pressão inflacionária e juros elevados ainda pressionando o fluxo de caixa das empresas.
“Ao mesmo tempo, alguns mercados asiáticos também receberam parte dos fluxos derivados de uma possível nova onda de investimentos das empresas de tecnologia, por conta de componentes eletrônicos, memórias, chips, produzidos por empresas desses mercados”, afirma o Safra.
Alerta de volatilidade com eleições próximas
O Safra segue enxergando bons fundamentos para o Ibovespa (IBOV) e reforça o preço-alvo de 220 mil pontos para o índice no final de 2026. “Esperamos que o mercado acionário brasileiro retorne aos fundamentos com a dissipação das incertezas relacionadas à guerra”, afirma o banco.
O Safra menciona como pontos positivos para o Ibovespa:
- um valuation atrativo, com a bolsa negociando a 7,7x lucro estimado para 2027;
- rendimento de dividendos do índice agregado de 7,2%, subindo para 8% em 2027;
- continuidade do ciclo de queda de juros, mesmo que limitada pela pressão do petróleo, favorecendo a recuperação de lucros nos próximos anos;
- retomada do movimento de rotação de recursos de mercados desenvolvidos para emergentes, nos quais setores de ativos reais da economia têm grande representatividade.
No entanto, o banco destaca que é esperada maior volatilidade no mercado acionário à frente, uma vez que o Brasil está a menos de seis meses das eleições.
Segundo o Safra, a volatilidade média do índice Bovespa aumenta cerca de 14% em anos eleitorais e ela começa a crescer de forma mais intensa em maio, permanecendo em níveis elevados até o resultado da eleição.
“Maio representa o mês de definição das candidaturas, com maior frequência das pesquisas eleitorais e intensificação das campanhas; portanto o preço dos ativos costuma ficar mais sensível às notícias que impactem as perspectivas para os candidatos”, explica o banco.
Além disso, é comum que o dólar tenda a se valorizar frente ao real, enquanto a bolsa brasileira, de forma geral, apresente desempenho mais fraco, exceto em setores como utilities, bancos e farmácias, papel e celulose, petróleo e gás, e bens de capital.
O que ainda ajuda o Brasil a atrair estrangeiros?
Segundo o Citi, o conflito no Oriente Médio também impactou os ciclos de afrouxamento monetário no país, com a pesquisa Focus do Banco Central (BC) projetando a Selic em 13,25% em 2026 e 11,25% em 2027, contra 12% e 10,50% antes da guerra, respectivamente.
“De fato, a guerra criou um choque inflacionário clássico impulsionado pela oferta (petróleo acima de US$ 100), com a resposta imediata de política econômica sendo um aperto monetário global”, afirma o Citi.
Como consequência, o banco menciona que grandes bancos centrais como o Federal Reserve, Banco Central Europeu, Banco da Inglaterra, Banco do Canadá, Reserve Bank da Nova Zelândia e Banco do Japão interromperam os cortes de juros e agora adotam um viés mais contracionista.
Nesse sentido, o Citi considera que o Brasil continua aparecendo como o mercado com maior afrouxamento monetário precificado, devido a:
- nível inicial mais elevado de juros;
- melhora nos termos de troca, dada sua posição como exportador líquido de petróleo.
“Assim, o Brasil permanece como o único grande mercado líquido em que a curva futura ainda embute um ciclo relevante de cortes de juros, enquanto outros mercados praticamente já reajustaram suas expectativas para ausência de cortes ou até possíveis altas”, explica o Citi. “Ainda assim, os fluxos estrangeiros permaneceram fortes até meados de abril e se inverteram desde então.”
Brasil ainda é destaque entre estrangeiros em 2026
O Citi aponta que fundos estrangeiros dedicados a ações brasileiras seguem compradores líquidos equivalentes a 23% do valor líquido dos ativos (NAV, em inglês), enquanto fundos domésticos brasileiros são vendedores líquidos de 3% do NAV.
Segundo o banco, os fundos locais ainda enfrentam resgates, um dos fatores que explicam a venda equivalente a 3% de seus ativos em 2026. “Muitos fundos estrangeiros utilizam o índice MSCI Emerging Markets como benchmark, e o Brasil vem aumentando novamente sua participação para 5%, nível no qual muitos fundos ativos mantêm equipes dedicadas à cobertura do país”, detalha.