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A ‘festa da reeleição’? MP das dívidas rurais divide especialistas e acende alerta para o Banco do Brasil (BBAS3)

31 jul 2026, 7:00
A medida é positiva para o Banco do Brasil e seus investidores? Entenda como o MP pode impactar a inadimplência.
A medida é positiva para o Banco do Brasil e seus investidores? Entenda como o MP pode impactar a inadimplência. (Foto: IA)

Não é de hoje que o agronegócio enfrenta uma crise de crédito que levou a inadimplência aos maiores níveis da história recente. Dados do Banco Central (BC) mostram que os atrasos superiores a 90 dias no crédito rural para produtores pessoas físicas atingiram 7,4%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2011.

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Esse movimento já aparece nos números do Banco do Brasil (BBAS3), maior financiador do setor. No 1T26, a carteira agro registrou inadimplência acima de 90 dias de 6,22%.

Na tentativa de aliviar esse cenário, o governo editou a MP 1.376, que cria um programa de renegociação de dívidas rurais com potencial para reestruturar mais de R$ 100 bilhões em operações, a um custo fiscal estimado em R$ 3,6 bilhões por ano para o Tesouro Nacional.

Mas, afinal, a medida é positiva para o Banco do Brasil e seus investidores? Ela resolve ou só adia os problemas do crédito rural?

Trata-se da terceira medida em pouco mais de ano para tentar socorrer os produtores. Em setembro do ano passado, o Governo havia lançado uma outra MP que garantia renegociação de dívidas rurais em condições especiais. Ao todo, foram R$ 12 bilhões para apoiar até 100 mil produtores, principalmente pequenos e médios agricultores.

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Já o Senado aprovou um projeto de lei que cria uma linha de crédito especial financiada pelo Fundo Social (FS) e outros fundos. Na prática, isso significa que custos mais elevados com insumos também poderão ser elegíveis para refinanciamento.

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(Montagem: Money Times)

A MP ataca a raiz da crise?

A deterioração do setor começou entre o fim de 2022 e o início de 2023, por uma combinação de fatores: forte queda dos preços da soja e do milho, juros elevados, restrição na oferta de crédito, alta dos custos com fertilizantes, perdas de safra no Rio Grande do Sul e no Centro-Oeste e redução das margens dos produtores.

Embora boa parte dos agentes do mercado descreva esse momento do setor apenas como um ciclo de baixa ou um período de ajuste, seus efeitos foram profundos. Entre 2024 e 2025, o Brasil registrou 1.272 e 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio, respectivamente, além de casos emblemáticos, como AgroGalaxy (AGXY3) e Grupo Portal Agro. Os números ficaram muito acima dos 534 pedidos registrados em 2023.

Fontes com trânsito no Congresso ouvidas pelo Money Times afirmam que a MP de renegociação das dívidas rurais é fiscalmente equivocada e não enfrenta as causas estruturais da crise do crédito rural. Na avaliação delas, a medida amplia os gastos públicos em meio ao ciclo eleitoral.

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Segundo essas fontes, o governo buscou estimular a economia com mais despesas, enquanto a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) ampliou o alcance da proposta durante as negociações. O resultado seria um aumento dos custos para o Tesouro Nacional sem resolver a origem do problema.

Apesar das críticas, elas reconhecem que a medida tende a beneficiar o Banco do Brasil ao transferir parte do risco das operações para o Tesouro. Na visão dessas pessoas, apenas a situação dos produtores da metade sul do Rio Grande do Sul justificaria uma ação dessa natureza, enquanto os demais deveriam ajustar suas finanças por meio da venda de ativos.

Uma das fontes ouvidas pelo Money Times fala em “festa da reeleição” e vê apenas apelo eleitoral na medida. No fim, a conta deverá sair dos bancos e recair no futuro sobre o Tesouro Nacional.

Quem é o vilão?

As fontes também rejeitam a tese de que a queda dos preços das commodities por si só explique, sozinha, a crise financeira do setor.

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Segundo elas, também houve falha no planejamento: produtores que aproveitaram o período de preços elevados para fortalecer o caixa atravessam melhor o momento atual, enquanto os que se alavancaram agora estão perdendo espaço para concorrentes com maior liquidez.

“Muita gente é principiante. Tem muito especulador. E isso é normal. É a lei de Darwin. Os que se adaptam, os mais eficientes, vão ganhar mercado em cima dos ineficientes, que vão sucumbir. Vai ter muita terra sendo vendida, muita gente sendo executada. Quem tem recursos vai comprar essas terras baratas e vai ampliar sua participação na produção”, destaca um gestor ouvido pela reportagem.

Elas ressaltam ainda que outras cadeias, como a do café, vivem uma realidade bastante diferente. O principal problema apontado por essas fontes é que a proposta foi ampliada para beneficiar um universo muito maior de produtores, transformando uma medida que inicialmente buscava atender regiões afetadas por eventos climáticos no RS em um programa de alcance nacional.

A inadimplência do Banco do Brasil vai crescer?

Na avaliação das fontes ouvidas pela reportagem, sim. E isso mesmo com o Tesouro garantindo uma parte das operações renegociadas.

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Segundo elas, muitos produtores mais pressionados financeiramente passaram a atrasar pagamentos como estratégia para pressionar os bancos durante as negociações, principalmente em operações garantidas por hipotecas.

“Quando você começa a falar em renegociação, renegociação e renegociação, tudo para. Quem está adimplente para. Quem está inadimplente também. O produtor que paga as contas em dia acaba vendo o vizinho inadimplente ser beneficiado, apesar de ter avião e apartamento de luxo em Balneário Camboriú. Pode desestimular o bom pagador”, disse um gestor com conhecimento no assunto.

Na sua avaliação, a lógica seria beneficiar o bom pagador, que oferece menor risco e, portanto, deveria ter acesso a juros menores.

Já para o gestor e especialista em bancos da Mantaro Capital, Pedro Gonzaga, as medidas do governo são “incentivos perversos”.

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“De certa forma, você beneficia o tomador de crédito que está em atraso. É por isso que os bancos tentam usar esse mecanismo com muita parcimônia. Eles não querem que isso seja encarado como uma prática recorrente. Eles querem dar crédito, não doar dinheiro para ninguém”.

E, no caso do agro, lembra, é o segundo programa em menos de um ano.

Por que o BB tirou o pé do acelerador?

As fontes também avaliam que a redução da participação do Banco do Brasil no financiamento da média e da grande agricultura está mais relacionada a uma decisão política da instituição do que a um aumento estrutural do risco do setor.

“Parece uma decisão ideológica essa escolha por reduzir o financiamento da média e grande agricultura. Cooperativas como Sicoob e bancos privados como o Itaú BBA tem crescido e modernizado estruturas. Você não vê nenhum Fiagro listado devolvendo dinheiro para o cotista”.

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“Se o agro estivesse com um problema estrutural, veríamos uma forte debandada. Na pior das hipóteses, essas instituições só não vão crescer suas carteiras neste ano”, completam.

Outro fator apontado para explicar o avanço da inadimplência foi a redução das renovações das linhas de custeio pelo BB. Como muitos produtores tradicionalmente quitavam uma operação utilizando recursos de uma nova linha de crédito, a menor oferta dessas renovações obrigou parte deles a usar caixa próprio para liquidar financiamentos, pressionando a liquidez e aumentando os atrasos.

“Isso fez com que muitos produtores precisassem quitar seus financiamentos com caixa próprio e muitos não tinham essa liquidez, o que acabou elevando a inadimplência.”

O outro lado: uma medida para ganhar tempo

Se, por um lado, parte do mercado vê a MP com preocupação, por outro há quem enxergue na iniciativa um importante alívio para a crise de crédito do agronegócio. Alan Glezer, CEO da fintech Agrolend, avalia que a medida provisória representa um primeiro passo para administrar a crise do crédito rural e preservar o financiamento ao agronegócio durante o período de ajuste.

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“É uma medida transitória que dá mais tempo para produtores e instituições financeiras reorganizarem suas posições. Mas ela não resolver a origem do problema”

Segundo ele, a iniciativa é transitória e dá mais tempo para produtores e instituições financeiras reorganizarem suas posições, embora não resolva a origem do problema. Na visão do executivo, a deterioração do crédito decorre da combinação entre a alta da Selic, a queda dos preços da soja e os custos de produção ainda elevados após o ciclo favorável de 2021 a 2023.

Diferentemente de parte do mercado, Glezer defende a ampliação do alcance da MP, argumentando que a crise já se espalhou para além das áreas afetadas por eventos climáticos no Rio Grande do Sul.

“Sempre haverá produtores que receberão o benefício e talvez não consigam se recuperar, mas fazer esse tipo de seleção, esse cherry picking, é inviável na prática.”

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Para ele, a renegociação deve beneficiar principalmente produtores eficientes que se alavancaram durante a expansão do setor, mas terá efeito limitado para agricultores com problemas estruturais de produtividade.

O que muda para o Banco do Brasil?

Segundo Alan Glezer, da Agrolend, a MP é positiva para o Banco do Brasil porque reduz o risco de uma retração no crédito rural. Como o BB é o principal financiador do agronegócio e o termômetro do setor, uma redução significativa de sua atuação teria impactos negativos para todo o setor.

“Seria muito ruim para o setor se o BB diminuísse de forma significativa sua atuação”.

O executivo avalia ainda que os benefícios da renegociação serão maiores para os bancos mais expostos ao crédito rural, como Banco do Brasil, Bradesco e Santander. Já o Itaú tende a sentir efeitos mais limitados devido à menor participação nesse segmento.

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Glezer ressalta que característica cíclica do agro deve fazer com que parte dos produtores recuperem sua capacidade financeira quando o ambiente macroeconômico melhorar.

Banco do Brasil elogia medida (e mercado também)

O Banco do Brasil e os analistas de mercado receberam bem a medida provisória. O banco afirma que ela pode apoiar a recuperação financeira do setor agropecuário, enquanto o BTG vê a iniciativa como um passo importante para aliviar a pressão sobre o crédito rural, embora mantenha cautela para os resultados do segundo trimestre de 2026.

Para Safra e Bank of America, a MP deve melhorar a capacidade de pagamento dos produtores e a qualidade da carteira dos bancos. O BofA estima que o programa possa beneficiar cerca de 10% da carteira de crédito do Banco do Brasil, equivalente a 60% dos empréstimos inadimplentes e refinanciados combinados.

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Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
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Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cobre mercados desde 2018. Ficou entre os jornalistas +Admirados da Imprensa de Economia e Finanças das edições de 2022, 2023 e 2024. Possui curso intensivo de mercado de capitais oferecido pelo Insper em parceria com a B3. É também setorista de bancos. Antes, atuou na assessoria de imprensa do Ministério Público do Trabalho e como repórter do portal Suno Notícias, da Suno Research.
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